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Um mundo a descobrir

Escrever sobre esta experiência não é nada fácil, afinal foram nove meses a viver tudo intensamente, como se acontecesse tudo pela primeira vez. Aprender coisas novas, conhecer novas realidades, presenciar comportamentos que desconhecíamos por completo.

Para muitas pessoas um projecto como este pode não ter qualquer tipo de significado. Para muitos pode ser apenas um motivo para viajar ou para sair de casa. Mas apesar da razão pela qual se faz SVE (serviço de voluntariado europeu), o importante, é que se faz e aquilo que se traz para casa. Novos conhecimentos, novas experiências, novas emoções. Ninguém tem o direito de dizer se está certo ou errado. O que interessa aqui é apenas a experiência que passaste, da qual te orgulharás para sempre. E é com esse orgulho que partilho o que vivi.

O meu projecto estava recheado de culturas de diferentes origens porque lidava com nacionalidades muito diversas. Era um projecto peculiar, uma vez que me permitia lidar com adolescentes imigrantes e com mulheres vítimas de tráfego humano e prostituição, possibilitando-me conhecer diferentes culturas e religiões. Teve lugar em Padova, uma cidade no norte de Itália perto de Veneza, uma cidade muito rica e por isso com bastantes imigrantes. Foi realizado numa Associação chamada Mimosa que dá apoio a imigrantes adolescentes que se encontram sem os pais em Itália e a prostitutas e/ou mulheres que sofrem de tráfego humano. Esta associação tem duas casas para que estes adolescentes possam viver: uma casa para raparigas e outra para rapazes. O meu voluntariado foi feito somente na casa masculina.

O meu primeiro contacto com a associação foi na entrevista com a presidente, Barbara, que com todo o seu cativante interesse pela causa, me explicou toda a história de imigração e prostituição em Itália, evidenciando as áreas de trabalho e a mecânica da associação. Fiquei fascinada por pensar que existem pessoas que investem o seu tempo em áreas onde os resultados raramente são alcançáveis ou se os são, demoram tanto tempo que exigem uma paciência e uma motivação sobrenatural.

Depois deste fascínio, fui conhecer a casa masculina com o coordenador Andrea. Foi quando me dirigia para lá que me disse que teria de dormir na casa. Comecei a pensar que não queria este projecto, que não queria dormir lá…para mim era algo impensável. A verdade é que depois de conhecer os rapazes que viviam naquela casa, senti que não era assim tão assustador e que estes miúdos eram apenas adolescentes como eu já fui um dia. Assim, comecei a fazer os meus turnos, um dia com mais vontade, outro com menos mas verdade seja dita, podia estar muito triste um dia que quando chegava à casa, os miúdos eram os primeiros a perguntar se estava tudo bem e a fazer-me sorrir.

Todos vinham de países muito diferentes e com experiências muito pesadas para pessoas tão novas. Gostava de partilhar um pouco das suas histórias de vida:

Khalil, de 16 anos, veio de Marrocos, um miúdo que chegou a Itália com menos de 12 anos. Veio sozinho, não se sabe bem como. Quando o conheci já tinha vivido em várias casas de acolhimento. A mãe vivia em Itália há dois anos mas não estava legalizada, por isso não podia assumir a responsabilidade de ficar com ele. Quando ficou legalizada não quis saber e Khalil saiu desta casa para viver num albergue para adolescentes imigrantes, onde lhe é dada uma mesada e total liberdade. Que futuro terá Khalil? Um rapaz que apenas queria que a família notasse nele e lhe desse um pouco de amor.

Hadi, agora com 18 anos, saiu da comunidade para viver sozinho e começar a sua vida autónoma. Foi com muita alegria que acompanhei a procura de uma casa e a sua ansiedade para começar a sua “vida”, a sua independência. Hadi veio do Afeganistão: veio de barco, de autocarro, pelo seu próprio pé. Passou pelo Paquistão, Irão, Turquia, Grécia e como ele dizia: sempre com o mesmo medo, o medo de morrer:

“e la mia paura era sempre la stessa…

Morire!”

Serghi, de 16 anos, vindo da Ucrânia. Era um miúdo carinhoso, “exigia” sempre um ombro para apoiar a cabeça, um abraço, um beijinho. Na primeira noite que dormi na casa ofereceu-me uma pequena lembrança que tinha feito. Foi o miúdo com o qual criei uma grande amizade e o que mais preocupação me deu quando vi o seu projecto de vida a descambar quando desistiu da escola. Hoje continua na comunidade mas não faz nada e nem tem projectos futuros (não estuda nem trabalha).

Alin e Stefan vieram ambos da Roménia. Alin saiu em Junho da comunidade, tem um trabalho e vive sozinho! Era um miúdo muito correcto, muito interessado em conhecer-me e sempre muito conversador. Adorava o Michael Jackson e era com orgulho que me mostrava as músicas que tinha no telemóvel. Oferecia-me sempre um café depois do almoço e gostava que o acompanhasse na varanda para beber o café e fumar um cigarro. Stefan veio atrás do amigo. Viviam na mesma aldeia. Era um miúdo muito fechado e solitário, não partilhava muitas coisas comigo. Trabalhava imenso e por isso, deitava-se sempre primeiro que os outros. Saiu da casa em Novembro.

Estes adolescentes tiveram um percurso diferente de muitos outros, o que para mim os torna únicos ao mesmo tempo que os torna especiais. Por isso não quero esquecer tudo que partilharam comigo. Aqueles miúdos são peculiares, são incomparáveis, são fortes, são “grandes”! Saíram dos seus países sem nada nem ninguém. Atravessaram fronteiras com medos, com esperança, com vontade de encontrar algo melhor! Encontraram? Não sei. Talvez sim, talvez não, muitas vezes um sonho é só mesmo um sonho. Certamente tiveram muitas coisas positivas mas também outras negativas. Mas uma coisa é certa, não tiveram uma infância e uma adolescência como eu tive. Foram forçados a crescer mais rápido que os outros. A sua adolescência foi passada na angústia de encontrar um trabalho para se poderem sustentar, pois com 18 anos o Estado italiano não os sustentaria mais. Estão por sua conta, sozinhos! Se forem despedidos não têm ninguém que os ajude. Penso neles todos os dias, será que estão bem, será que estão felizes, será que ainda estão em Itália? Espero sinceramente que estejam bem e felizes. Recordarei para sempre o amor que recebi destes miúdos pois foi muito especial e único.

Depois de iniciar os meus turnos na casa dos rapazes, dei conta que para mim não bastava, precisava de estar ocupada durante o dia. Foi aí que comecei a procurar outras associações onde pudesse fazer voluntariado. Comecei por fazê-lo sozinha mas as respostas eram sempre negativas ou inexistentes. Até que a certo ponto decidi falar com o meu tutor Emiliano, que me deu um apoio fora do comum, mostrando-se atencioso e contentor das minhas emoções, que surgiam como um vulcão em erupção. Disse-lhe em que área gostava de fazer voluntariado e uma semana depois comecei a dar apoio num Dopo scuola (Centro de Actividades de Tempos Livres). O meu papel desenrolava-se na parte de animação quando as crianças terminassem os trabalhos de casa. Fazia jogos com eles, desenhos, máscaras de Carnaval, etc. A ideia era entretê-los, enquanto as outras crianças acabavam os seus trabalhos. Para além desta associação, tive oportunidade de fazer voluntariado em mais duas associações: Casa IN-CON-TRA que se dedicava a mulheres refugiadas e aos seus filhos e Intercultura que trabalhava na área da educação não formal para uma aprendizagem intercultural e uma educação global.

Em Maio iniciei outra actividade: a equipa de rua, outro desafio intenso no meu projecto. Este trabalho incidia essencialmente num acompanhamento às prostitutas que se encontravam nas ruas de Padova. Esta acção começava por volta das 22h. A técnica que pertencia a esta equipa já conhecia quase todas as mulheres que por ali se achavam. Sempre que encontrávamos uma mulher, parávamos o carro para podermos conversar um pouco com ela e perceber se já tinha ido ao médico, uma vez que muitas delas não se encontravam legais no país e por isso, não podiam ser atendidas por um médico de um centro de saúde. Nestes encontros procurávamos incentivá-las a fazer análises clínicas para saber como estavam. A maioria delas garantia que usavam contraceptivo quando tinham relações com os clientes, no entanto é sempre bom ser examinado. No final da nossa conversa dávamos um preservativo, ao qual chamávamos il porta fortuna (aquele que traz boa sorte)! Ao pertencer nesta equipa, reconheci que este é um mundo completamente diverso daquele a que estamos habituados. É totalmente diferente passarmos de carro e observarmos uma mulher parada na rua, do que falarmos com ela. É quase impossível compreendê-las, entender qual a razão que as traz ali, na noite escura, fria e solitária. E por isso é mais fácil julgar do que tentar perceber um facto que para nós nos parece incompreensível. As ruas acolhem estas mulheres que por vezes ainda nem sequer atingiram a maioridade. Algumas são simplesmente adolescentes, crianças que não puderam ter outras oportunidades como nós. Nestas saídas, falei com tantas nigerianas que, na maioria das vezes, são vendidas pela família porque acreditam que na Europa poderão ter uma vida melhor e, através disso, ajudar os pais e irmãos que permanecem na Nigéria. Da mesma forma que encontramos tantas nigerianas, podemos também encontrar tantas raparigas da Europa de Leste, que partem para Itália com esperança de encontrar um trabalho que lhes permita ajudar os que ficaram para trás no seu país. Como a prostituição mostra ser o caminho mais fácil, deparamo-nos com jovens que com apenas 18 anos já fizeram 7 abortos. O que me faz pensar, eu com 18 anos queria tirar a carta e entrar na Universidade. Realmente, a igualdade de oportunidades é um mito que os estados usam e abusam para tentar tornar os seus países mais humanos!

Para finalizar esta minha história, é importante destacar a cultura e a vida social em Itália. São aspectos muito característicos deste tipo de projectos que o tornam ainda mais rico. Viver noutro país permite-nos uma vivência cultural única. E apesar de ter escolhido Itália (um país com uma cultura muito idêntica à minha) não significa que não exista essa troca e essa partilha. Para além das coisas mais básicas como a língua e a comida, existem padrões de comportamento divergentes. A linguagem corporal, por exemplo, que é muito própria dos italianos; o uso da bicicleta como meio de transporte; os filmes estrangeiros dobrados…Só nos apercebemos destas realidades quando temos a possibilidade de viver lá, pois passado pouco tempo, somos nós próprios que começamos a usar a linguagem corporal no nosso discurso, somos nós que vamos fazer as compras de bicicleta, somos nós que vemos os filmes dobrados na televisão ou no cinema. E não posso deixar de evidenciar outra característica à qual ninguém fica indiferente: o aperitivo no final do dia. Os italianos têm como hábito, encontrar-se num café, num bar, numa esplanada, e com uma bebida e uns petiscos, relaxam e convivem com os amigos e familiares. As praças cheias de gente, as ruelas movimentadas, a luz natural do fim do dia, criam uma imagem magnífica. Esteja frio, sol ou chuva, ninguém se nega ao típico aperitivo italiano. E eu, com vontade de viver como uma verdadeira italiana, também o fazia sempre que possível. A cultura e a vida social foram aspectos singulares deste projecto, pois permitiram sentir-me como uma italiana em Itália e não como uma imigrante em Itália.

Mas esta vida social nunca poderia ser feita sem amigos, amigos que quando se está fora do país se tornam a nossa família sem os quais não conseguiríamos viver. A minha vida tornou-se num mini mundo recheado de pessoas de todas as nacionalidades. Tive o prazer de conhecer pessoas da Turquia, Hungria, Geórgia, Botswana, Espanha, Alemanha, Polónia, Inglaterra, Bélgica e tantos outros países. Partilhávamos todos a mesma sede de descobrir o desconhecido, o mesmo entusiasmo de falar uma língua que não era a nossa, a mesma saudade dos amigos e da família. Foram com certeza um suporte crucial para mim durante os noves meses, sem o qual não poderia ter vivido este projecto com um sorriso na cara!

Com orgulho vos falei da minha história, do meu voluntariado, do meu projecto. Sim, porque este projecto foi meu, foi criado por mim. Não me refiro à sua estrutura, às suas actividades mas sim à maneira como lutei por ele e como lutei por completá-lo com outras singularidades que só a mim que me faziam sentido. Ninguém poderia tê-lo feito por mim e, por isso, estou grata por tê-lo feito!

by Mónica Correia, Portugal


Scriptamanent2010

Scriptamanent è un concorso  internazionale di scrittura aperto ai giovani che hanno fatto un’esperienza di volontariato all’estero. Questa è la seconda edizione del concorso, che è stato lanciato per la prima volta nel 2009 dall’associazione culturale Link. Partecipare è semplice: basta leggere il regolamento e inviare il proprio scritto a scriptamanent@europe.com

Scriptamanent é um concurso de escrita aberto a todos os jovens que tenha realizado uma experiência de voluntariado num país estrangeiro. Esta é a segunda edição do concurso, que se realizou pela primeira vez em 2009 através da Associazione Culturale Link. Participar é simples: basta ler o Regulamento e enviar o texto para scriptamanent@europe.com

Scriptamanent is an international writing competition open to young people who have done voluntary experience abroad. This is the second edition of the competition which has been launched for the first time in 2009 by Associazione Culturale Link. Go to the rules to see how to participate by sending your story to scriptamanent@europe.com


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